O ato de escutar música

De certa forma, o ato de escutar música foi se tornando cada vez um ato menor, menor no sentido de ocupar menos espaço, primeiro só era possível escutar música se fosse tocada ao vivo, depois vieram os discos, fitas, CD’s, mp3… Hoje não é preciso nem de um HD ou pendrive para ter as músicas, o streaming já te traz tudo. Penso que essa praticidade é um dos vários motivos que nos incentivam a escutar músicas como sons ambientes. Além de sermos acostumados a sempre ter um estímulo visual ou sonoro.


Fora isso, os algoritmos dos aplicativos de streaming compilam músicas e artistas semelhantes para tocarem automaticamente, se enquadrando ao gosto dos ouvintes sem que a pessoa tenha que ficar mudando as faixas.


O efeito disso, além de nos aninharmos cada vez mais em estilos de músicas semelhantes, é que acabamos experienciando as faixas de maneira mais superficial, sem perceber os elementos que de fato compõem aquelas músicas. As linhas que foram executadas, as texturas de timbres, o encaixe da letra na melodia, tudo isso passa pelos ouvidos sem comunicar, porque já estamos saturados daqueles sons, além de não estarmos ativamente focados na música.


Levando isso em conta, penso sobre a experiência de gravação, penso se todo aquele trabalho de escrever as notas, de moldar o voz da guitarra, de escutar repetidamente o mesmo trecho de 10 segundos vai produzir um resultado relevante para o ouvinte. Como fazer a música se fazer presente e não apenas um som que sai do celular enquanto respondemos e-mails?


É claro que essa preocupação de realizar algo que seja notado sempre existiu, mas agora é preciso vencer essa barreira da distração, sair do emaranhado de músicas que o Spotify ajunta, não ser apenas ouvido, mas escutado.


Inclusive, penso que às vezes até nos esquecemos de que alguém teve o trabalho de gravar as músicas, talvez por isso o fenômeno das lives foi tão grande, não pela qualidade de som, que evidentemente não é das melhores, mas porque evidencia o artista realizando a obra.


Um dos álbuns que mais gosto do Gilberto Gil é o Cidade do Salvador, o que está registrado como vol. 2 no Spotify. Fora a imensa qualidade das músicas, em alguns trechos escutamos a contagem no estúdio e eles tocam “Maracatu Atômico” 3 vezes por causa de erros. Isso dá vida ao álbum, não são apenas faixas de streaming, é o registro da obra, a evidência do processo.


Acredito que, como artistas, temos que continuar trabalhando pra produzir cada vez mais coisas que se sobressaiam desse tom médio perdido nas atividades cotidianas, temos que buscar cada vez mais alcançar uma comunicação em um nível pessoal com os ouvintes, fazer as pessoas sentirem. Visar, não só um número de curtidas ou de plays, mas também uma interação mais verdadeira.


E, como ouvintes, penso que temos que dar uma chance a toda forma artística de comunicação, parar alguns minutos pra realmente escutar o que estão querendo dizer com as músicas, não só a letra, mas também o arranjo, as melodias, os timbres, a intenção…


Fiquem bem e não abandonem a música.


Mateus Albino



ESCUTE O PODCAST SOBRE ESSE TEXTO


20 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo